segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A excessividade da trilogia Millennium



Após ser lançado em 2008, primeiramente na Suécia e em seguida para o resto do mundo, a série Millennium do autor Stieg Larsson, falecido antes das publicações de suas obras, logo se tornou recordista de vendas por onde passasse caracterizando desta forma como verdadeiro best-seller no qual trás a dupla formada pelo editor da revista Millennium, Mikael Blomkvist, jornalista sensato que busca desmantelar vários escândalos envolvendo o governo sueco; e a jovem investigadora Lisbeth Salander, provida de um temperamento explosivo.

Dito se tratar de uma coleção forte que busque revelar a complexidade das personagens, ações controvertidas e consequências das ações movida às vezes pela verdade, sobrevivência ou vingança até sendo exageradamente chamado de o "Crime e Castigo do Século XXI" a narrativa apresentada nos três volumes contém alguns mistérios que se não chegam ser surpreendentes ao termíno causam satisfação quando reveladas por Larsson justificando a fórmula do bom romance policial, induzir pequenas descobertas que contribuam para o desenvolvimento seguro da trama.

Não dá para elevar ao patamar clássico de Dostoiévski, Millennium está mais próximo da trilogia vivenciada pelo professor universitário Robert Langdon e distante da perfeição ao qual foi intitulado ou quase sendo uma versão escrita de Jason Bourne e sua luta para recuperar a identidade em meio conspirações. Tal afirmação não procura desmerecer, ambos exemplos são bem valorizados cada qual em sua área, mas assim sendo uma agradável leitura, porém, pouco daquilo tão falado.


O melhor comparado aos demais. Uma ambientação sombria, misteriosa e violenta cercada pela dúvida de quase quarenta anos que atormentam Henrik Vanger, influente empresário aposentado membro de uma importante família, sob o desaparecimento de sua sobrinha acreditando que ela tenha sido assassinada por alguém próximo passando assim desconfiar de todos seus parentes incluindo dos próprios pais da garota mesmo após tantos anos.

Enquanto isso Mikael Blomkvist, protagonista da série junto com Lisbeth, é condenado à prisão devido ter perdido uma importante causa contra um poderoso magnata. Aproveitando da situação Henrik convence Mikael mudar-se para a ilha na qual mora com o restante da família tendo como real objetivo reabrir as investigações pelo mistério por trás do desaparecimento da então jovem sobrinha e como pagamento possíveis provas sobre a culpa do magnata que o prejudicou.

Paralelamente Lisbeth Salander, a garota da tatuagem de dragão, está no meio de uma forte crise envolvendo seu novo tutor já que ela apesar da maior idade é considerada incapaz por conta do passado traumático justificando dessa maneira parte da personalidade destrutiva. Trabalhando numa empresa ligada aos interesses de Henrik Vanger termina envolvida no caso da garota supostamente morta começando dessa maneira a parceria com Mikael.

Intrigas à parte o teor denso misturando questões relacionadas à violência principalmente contra mulheres sejam elas físicas, psicológicas ou sexuais partindo muitas vezes de alguém próximo faz do livro o melhor e mais completo do conjunto. A personagem Lisbeth é bem construída, até mais desenvolvida do que Mikael, o enredo agrada aos adeptos dos romances investigativos, a premissa é bastante interessante, mas peca em algumas passagens tornando extensas demais.

Talvez se a trilogia Millennium começasse e terminasse com este exemplar, sem fazer necessário continuações, poderia ser que o impacto da obra tivesse sido mais forte, entretanto, apesar do final satisfatório Stieg Larsson deixa algumas pontas servindo de ganchos para os outros volumes que passam explorar o senso de justiça de Mikael e a busca por vingança da exótica Lisbeth reforçando teorias conspiratórias que são completamente desnecessárias.


O começo do declínio. A trama gira em torno do mundo da espionagem e os personagens passam desfrutar de uma perfeição artificial principalmente por parte de Mikael Blomkvist que de jornalista voltado as facaltruas políticas torna-se uma espécie de detetive como única razão resgatar Lisbeth da perigosa teia mortal na qual se encontra envolvendo assassinatos, a origem da sua psicose e o drama familiar formado pela mãe doente e o pai cruel.

A garota da tatuagem de dragão é acusada das mortes de três pessoas, sendo uma delas responsável pelos maus tratos sofridos no primeiro livro, e um casal ligado a uma das matéria mais escandalosa da Millennium desde o episódio do magnata relacionando personalidades suecas com prostituição e tráfico de mulheres. Para complicar Lisbeth Salander simplesmente some dando entender as autoridades que é culpada passando ser considerada doente mental pelo fato de no passado ter sido interna de um hospital psiquiátrico.

Surge ainda a figura de um homem descomunalmente forte que atravessa o caminho de Lisbeth, primeiro despercebido, mas gradativamente tentando todo custo prejudicá-la enquanto essa parte desenvolve Mikael depara-se com segredos de estado da Suécia estando mesmo indiretamente relacionado ao passado da problemática garota e descobre que quem passa ter conhecimento desses fatos termina morrendo.

O pecado principal deste é transformar Lisbeth Salander, personagem incontestavelmente forte, numa mulher-maravilha: ela vira especialista em disfarce, invade apartamentos, cria armadilhas complexas, luta contra homens do triplo de seu tamanho. Apesar da boa construção psicológica, dos traumas da infância, da magoa decorrente uma vida desfarcelada é exagero dar esse rumo, de pessoa incompreendida à justiceira implacável para até quem pouco tempo atrás era figura de desconfiança aos demais do seu convívio.

Outro fator que ainda deve ser apontado é a maçante quantidade de páginas irrelevantes contendo fragmentos de subtramas que em nada vão ajudar colocadas para ocupar espaço sem serventia alguma. Entre deslizes, o livro compensa por sua agilidade perante ações de aventura, mas sem ter alto grau de suspense fazendo-o inferior ao primeiro, contudo, devidamente concluído como ponte para a última parte.


O menos empolgante e o mais óbvio. A partir daqui não terá grandes reviravoltas no mundo até então apresentado confirmando apenas os desfechos das inúmeras pontas deixadas entre a transição do segundo para o terceiro volume sem qualquer acréscimo de informação considerável sendo burocrático, morno, e até pouco desafiador enquanto ato final demonstrando certo desgaste aos personagens e as características já amadurecidas.

Após acontecimentos que finalizaram a segunda parte Lisbeth Salander agora terá de responder na justiça os diversos crimes que está sendo acusada além de ter de lutar por sua inocência também precisará batalhar por sua vida, devido revelações envolvendo o mais alto escalão do governo sueco numa inimaginável rede de corrupção tão bem arquitetada que se revelada poderá mudar o destino do país perante seus governantes.

O jornalista Mikael Blomkvist continua investigando para ajudar sua parceira e desmascarar os verdadeiros culpados, mas agora ele não está sozinho, possui um grupo de aliados incluindo sua irmã, Annika Giannini, advogada que irá defender Lisbeth, e o inspetor de polícia Jan Bublanski, este indo contra as provas levantadas pela promotoria por acreditar faltar elementos cruciais na acusação partindo em sua própria busca.

Chega ser fadonho tal processo, circulando entre os mesmos elementos, causando o desgaste falado anteriormente, deixando ser guiado pela estrutura concebida para a série, tudo passa encaixar sem mais empolgação, tanto Mikael e Lisbeth não tem para onde crescerem, o apogeu de um acontece logo no primeiro livro e do outro no segundo. A Rainha do Castelo de Ar é apenas formalidade para completar a trilogia.

Fora pormenores o enredo cativa por mostrar uma figura deslocada numa sociedade feroz, apesar de não mostrar essa faceta diretamente, mas relacionada aos fatos criados a cada capítulo, das circunstâncias e motivações tanto partindo dos benfeitores ou malfeitores. Stieg Larsson soube criar um plano de fundo bem composto, entretanto, insólito em alguns momentos só que como leitura de cabeceira entretém sem maiores exageros.


VERSÃO GRAPHIC NOVEL

Aproveitando para adaptar em novas mídias, primeiro sendo a versão cinematográfica sueca com os três livros lançados em 2009 e uma americana produzida neste ano narrando o início da trama, chegou a vez da garota da tatuagem de dragão também ganhar as páginas da arte sequencial pela editora Vertigo.

O projeto encabeçado pela escritora escocesa Denise Mina acompanha do desenhista argentino Leonardo Manco e do também desenhista italiano Andrea Mutti, todos com passagens por edições de Hellblazer. A trajetória da trilogia Millennium será divida em seis publicações, apresentando a primeira parte de "Os homens que não amavam as mulheres" agora em novembro.

Por aqui, provavelmente, seja lançada pela Panini Brasil já que esta traduz edições da Vertigo, mas ainda sem saber se será lançada simultaneamente ou se terá de esperar.


STIEG LARSSON, O AUTOR

Apesar da construção de uma das séries literárias mais bem sucedidas da atualidade não dá para colocar Stieg Larsson entre um dos melhores escritores dos últimos tempos como também alguns fizerem até porque ele concluiu apenas essa obra sem ter tido oportunidade de desenvolver novas para se ter uma idéia da solidez de sua biografia enquanto romancista.

Escrever um bom livro não significa ser necessariamente um bom escritor, já teve casos de pessoas começarem sua carreira no meio elogiadas só que com passar dos lançamentos irem caindo de produtividade da mesma forma como alguns tão criticados melhorarem.

Infelizmente devido a morte do autor não saberemos em que perfil se encaixa, na de um excelente contador de histórias ou mediano, mas o importante é saber que se não fez uma trilogia tão estimada quanto imaginada ao menos garante passar o tempo sem desperdício.

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