sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Tão atual quanto há 146 anos atrás


Foi necessário quase um ano e meio entre idas e vindas para concluir a leitura desse livro escrito por Fiodor Dostoiévski, um dos romancistas russos mais influentes do Século XIX, e que talvez em Crime e Castigo tenha realizado sua melhor obra, ao menos uma das mais conhecidas do autor. Em resumo não dá para descrever tamanha complexidade presente na trama, não é uma leitura de fácil compreensão, fazendo muitas vezes preciso reler o mesmo capítulo.

A história se passa em São Petersburgo narrando as dificuldades vividas pelo ex-estudante de direito Raskólnikov, um rapaz pobre, megalomaníaco e que vive num pequeno quarto alugado em condições de miséria passando boa parte do tempo por grandes necessidades entre elas o abandono da vida acadêmica por não possuir condições, mas almeja realizar algo grandioso (segundo o próprio personagem ele é uma pessoa de potencial) e que termina assassinando uma velha agiota, Alena Ivanovna, uma senhora de saúde debilitada conhecida pela maldade em tratar as pessoas e a irmã dela, Lizavéta, para quem devia dinheiro por penhorar o relógio dado pelo pai já falecido, entretanto, a razão do homicídio não é levado pela dívida e sim a ideia de matar, sendo em sua teoria justificável.

O medo de ser pego pelo crime, desprezando o sentimento de culpa, passa atormentar o personagem principal levando de certa forma ao enlouquecimento e os castigos decorrentes tal ato criminoso vindo lentamente através de seus medos e receios que vai deixando cada vez mais sufocado pelo segredo tenebroso fazendo que desfaça de alguns itens surrupiados durante a noite dos assassinatos escondendo debaixo de uma pedra num lugar abandonado. Pessoa de poucos amigos Raskólnikov convive mais consigo mesmo do que com qualquer outro indivíduo e talvez devido a isso sofra descabidamente não apenas pelo crime, mas relacionado as dificuldades da vida das quais está fadado como por exemplo alimentar-se somente quando alguma comida é levada para o quarto no qual mora suspenso pela falta de pagamento.

A solidão da figura central é notável da mesma maneira como sua inspiração pelo imperador francês Napoleão Bonaparte e a construção da sua linha de raciocino onde defina a existência de apenas dois tipos de seres humanos: ordinários e extraordinários. No primeiro grupo as pessoas basicamente não podem realizar grandes feitos estando condenadas uma vida de submissão enquanto o segundo em contrapartida tem o direto de concretizarem suas ideias mesmo que para isso tenham de quebrar regras e leis por serem superiores aos demais, nesse aspecto busca enquadrar os assassinatos da velha senhora e de sua irmã que faltamente adentra no momento do crime cometido por Raskólnikov morrendo devido o fato de testemunhar a brutal morte da irmã com um machado que também é usado para assassinar Lizavéta.

A maneira como o decorrer da trama é apresentada humanizando as ações do jovem flagelado que durante boa parte do livro vive em febre e tendo alucinações por causa das precárias condições sub-humanas em se encontra racionaliza para o ensaio de suas ações deturpadas dando certo entendimento não só ao crime, mas a personalidade moldada através da depressão e miséria de não poder conseguir mudar seus padrões apesar de almejar tal feito. Crime e Castigo faz jus a condição de ser um dos grandes livros de todos os tempos mesmo possuindo uma leitura para poucos.

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