quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A nova cara do cinema nacional: comédia



É perceptível tamanho crescimento da comédia nacional nas salas de exibições tanto que ao longo do ano passado boa parte das novidades provia do gênero como Billi Pig, E aí... Comeu?, Reis e RatosAté que a Sorte nos Separe, Totalmente InocentesOs Penetras e a continuação De Pernas pro Ar 2, entre outros, tornando uma das maiores safras da história brasileira. Apostar nessa espécie de cinema parte do princípio em criar cada vez mais blockbusters verde e amarelo atraindo público para sessões tupiniquins, entretanto, apesar da pretensão o primeiro semestre de 2012 não foi generoso fazendo que nenhum dos filmes lançados no período atingisse a marca de 1 milhão de espectadores, feito alcançado somente na outra metade do ano.

Segundo produtor Augusto Casé, entrevista para Folha de São Paulo (junho, 2012), a acensão das produções nacionais terminam preenchendo lacunas deixadas pelas comédias hollywoodianas (clique aqui) e de fato características comuns as realizações americanas se fazem notadas no produto brasileiro, importando o melhor, contudo, também o que há de pior. Não é desmérito procurar possuir uma base, tentar repaginar aos moldes daqui uma versão do feeling encontrado num Sex and the City, My Names Is Earl ou no humor pastelão de Leslie Nielsen, mas peca na hora de tentar transmitir, das fórmulas saturadas e até certo ponto baixas.

Claro, não se pode condenar um todo pela ruindade de alguns, o problema é quando os "alguns" começam a ser quase totalitariedade do "todo" e pior dando retorno, contribuindo dessa maneira para futuros títulos de mesmo segmento. Para quem tentou assistir os devaneios nada engraçados de As Aventuras de Agamenon, o Repórter, escrito por Marcelo Madureira e Hubert, da ultrapassada turma do Casseta & Planeta, apresentando um humor escasso levantando assim questionamento da necessidade de faturar a qualquer custo e com isso levando para as telas dos cinemas ideias que nem mais na televisão daria audiência.

Se por um lado temos obras despretensiosas que terminaram sendo agradável passatempo a exemplo de Meu Tio Matou um CaraTrair e Coçar, é só Começar, Ó Pai, Ó ou dos grandes sucessos Se Eu Fosse Você e Divã seguem na contramão Muito Gelo e Dois Dedos D'Água, Sexo com Amor?, Cilada.com, A Guerra dos Rocha e vários que tentam pegar carona através da boa aceitação de trabalhos elogiados, mas que terminam falhando em diferentes quesitos desde um roteiro mal elaborado à situações pífias, quase sempre de conotação sexual, recorrendo ao popularesco para arrancar algumas poucas risadas.

Outro aspecto que já deveria ter sido assimilado é que televisão e cinema são mídias apesar de próximas diferentes, o que vale de receita para existo de um não será obrigatoriamente ao demais e mesmo após inúmeras tentativas de "televisionar" projetos cinematográficos a repetição do erro persiste. Foi-se o tempo áureo de Renato Aragão (das boas comédias oitentistas) e do cineasta Ivan Cardoso (mestre do "terrir" nacional) para dar lugar ao domínio de Bruno Mazzeo & cia, às vezes acertando, mas na maioria das oportunidades escorregando no próprio alter ego.

Se acaso deparamos com filmes cujo único intuito é entreter o público através de caras e bocas, piadas defasadas, situações torpes ou que remeta sentido dúbio ainda assim em contrapartida também temos conhecimento de obras interessantes, apresentada de forma sútil, clara e bem executadas que podem não vingar como sucesso de bilheteria no entanto cumprem o papel de passar uma estória coesa, dentro do contexto do qual propõe estabelecer e agradável de ser acompanhada sabendo que ao termino foi passada uma imagem positiva ao espectador.

Produções como Saneamento Básico, o Filme, pouco menos de 200 mil espectadores, é prova de um trabalho impecável enquanto a primeira parte da franquia De Pernas pro Ar, realizado em 2010, arrematou cerca de 3 milhões de pessoas por uma trama que se inicia e finaliza no mesmo lugar, apresentado Ingrid Guimarães numa versão à la brasileira da atriz Sarah Jessica Parker, superando também a adaptação de O Bem Amado com teor cômico e crítico afinados fazendo deste outro bom exemplar pouco reconhecido.

O chamado movimento de retomada do cinema nacional, enfatizado no início dos anos 2000, presente difusão da Ancine (Agência do Cinema Nacional) e publicidade gerada em torno do mesmo contribuiu para que ideias de cunho populares pudessem ganhar versões nas grandes telas a exemplo dos seriados Os Normais A Grande Família, sucesso enquanto programas quanto filmes, faturando mais de 5 milhões de ingressos quando somados, apontando dessa forma os tipos de produções que se é esperada do cinema brasileiro, ora leve voltada para família ora ácida direcionada ao universo adulto.

Apesar do recente direcionamento para apenas uma vertente do segmento existe comédias para todos os gostos indo do humor melancólico presente na trama Polaróides Urbanas, conjunto de esquetes focado em personagens que se deparam com um dia atípico, até o humor sacanagem mostrado no longa A Casa da Mãe Joana, protagonizado por sessentões vivenciando diversas dificuldades, entre elas a vida sexual. Podendo escorregar aqui ou ali tais trabalhos possuem seus valores passando a impressão de que às vezes é preciso dar chance de serem vistos ao invés de buscar empecilhos a todo custo para denegri-los.

Embora haja inúmeras citações sobre existência de boas comédias produzidas no Brasil ainda há resistência perante parte do público, até desdenhando (não apenas ao gênero), no qual surgem infinitas críticas procurando somente apontar defeitos sem nunca procurar congratular quando estes fazem por merecimento chegando cultivar possível sentimento de anti-cinema brasileiro, criando repudia pelo fato do filme ser de origem local onde algumas pessoas terminam julgando sem ter conhecimento de causa, por isso é válido ressaltar da importância em ir assistir porque dessa forma terá competência de elogiar ou criticar.

Uma das prováveis razões para rejeição por parte das pessoas talvez seja a maneira como essas produções são feitas, muitas vezes conduzidas por um mesmo grupo, o que pode terminar desgastando pelas repetições buscando repaginar elementos presentes em outras obras gerando mesmice além de querer empurrar um tipo de humor desqualificado, enfadonho e arrogante no qual se limita aos interesses de quem os fazem desprezando a vontade do que deveria ser o alvo principal, o público.

Contrariando opiniões de cineastas importantes onde criticam abertamente ao dizer que esses filmes possui intuito meramente mercadológicos o setor cresce levando tranqueiras dignas de pena exemplificada nas duas péssimas tentativas do enjoado Casseta & Planeta, A Taça do Mundo é Nossa e Seus Problemas Acabaram!, ou ainda dos que se perdem na definição que procuram seguir seja entre comédia ou drama, caso vivido no inconsistente Amanhã Nunca Mais, projeto que se tinha boas expectativas.

É importante sempre frisar que como qualquer indústria cinematográfica mundo à fora a do Brasil não poderia ser diferente e com isso faz necessário ter sim produções voltadas ao entretenimento sem necessidade de possuir algum significado específico a não ser divertir, deixando pouco de lado toda intelectualidade que parte dos idealizadores defendem, tentando serem proprietários de algo cujo pertence a todos e não essa ou aquela classe, sair do lugar comum dos manjados filmes dramáticos preocupados com existencialismo, sofrimento, tristeza, pobreza. Parafraseando Joãozinho Trinta: "o povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual".

Não pode e não se deve querer forçar aceitar coisas só pela causa privada de alguns que para maquiar possíveis insucessos culpam a presente proliferação dos filmes nacionais populares, neste caso comédia, ou da excessiva importância dada para produções internacionais, mas esquecem de analisar suas próprias perspectivas, o conjunto criado, ver a se qualidade de seus trabalhos estão acessíveis para todos como ideia e não voltado unicamente à poucos, desprendendo assim do orgulho pessoal.

Filmes bons ou ruins vão existir em qualquer parte, nos Estados Unidos, França, Argentina, Coréia do Sul, Japão e aonde mais tiver núcleos de cinema, não é exclusividade brasileira, digamos a verdade. As comédias nacionais podem estar em evidência, no entanto não quer dizer que sejam a salvação do mercado interno basta que surja bons argumentos para serem levados as telas e até mesmo as piores produções do gênero podem virar grandes ícones, melhor exemplo do que Cinderela Baiana não há.

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