quarta-feira, 10 de abril de 2013

Uma excelente trilogia medieval



Lançado há quase vinte anos atrás As Crônicas de Arthur, escrita por Bernard Cornwell, do qual fazem parte os livros O Rei do Inverno (1995), O Inimigo de Deus (1996) e Excalibur (1997), apresenta boa parte da trajetória do rei bretão (tecnicamente não foi rei) e confidentes na tentativa de manter unido o país britânico após a retirada dos romanos de seu território e das investidas das poderosas tribos saxões.

Buscando acima de tudo manter o nível histórico ao invés das lendas que giram em torno da figura mítica de Arthur, lembrando que até hoje nunca foi comprovado de fato sua existência, a série tenta apresentar mais realisticamente os personagens que faziam parte da convivência do imponente líder do castelo de Camelot, primeiro mostrado como filho bastado do rei Uther, e gradativamente ocupando o espaço de guerreiro protetor do reino.

A narrativa parte das memórias do monge Derfel Cadarn que relata os acontecimentos decorrentes na época de sua convivência com Arthur, desde quando sacerdote era bem jovem, uma criança, passando pelas principais fases do reino incluindo momentos conturbados, ascensão do rei, seus feitos e conflitos de interesse pessoal, mas revelando um lado possesso de admiração por parte da figura tratada nas crônicas.

Os três livros são a confirmação de uma aventura rica em detalhes, acertando agradavelmente neste quesito, claro, sem esquecer a construção psicológica dos personagens apesar de alguns serem o manjado esteriótipo da pessoa boa ou má onde o bonzinho sempre será honrado e do mau sempre vai ser desprezível, contudo, somando tantas qualidades pequenos deslizes passam desapercebidos já que a leitura torna-se tão particular.


O REI DO INVERNO

O livro que inicia a trilogia apresenta uma Britânia conflituosa, tomada pela constante pressão causada pelos saxões em suas diversas tentativas de invasões ao território, divergências internas e desagrado com outros pequenos reinados revelando a contante instabilidade daquele lugar.

De acordo as necessidades surgem figuras já tão conhecidas das lendas de Arthur e os cavaleiros da távola redonda a exemplo de Lancelot, Merlin e Guinevere, mas diferentemente das fábulas esses personagens demonstram uma maior humanização enquanto atitudes, escolhas e personalidade, podendo ser até mesmo muito diferente do que se é conhecido através de outras histórias.

Em O Rei do Inverno não dá para esperar uma aventura épica como acontece em outras narrações sobre Arthur, aqui tudo não passa de relatos plausíveis por parte de quem conviveu com ele, Derfel Cadarn, para a rainha Igraine que lhe pede para contar sua versão dos fatos.



O INIMIGO DE DEUS

O segundo exemplar das Crônicas de Arthur trás novamente a tona os personagens revelados no volume de estreia e também explorando um pouco mais a vida do narrador Derfel Cadarn incluindo algumas perdas familiares e decisões equivocadas por parte de Arthur que aqui saiu vitorioso da batalha pela unificação do Reino da Britânia.

Talvez seja o melhor livro da trilogia tendo como um dos temas o avanço do cristianismo naquela época colocando em risco da força dos Antigos Deuses da região e saber lhe dar com isso.

Este exemplar chega ser mais empolgante de se ler comparado ao antecessor dando maior destaque para Merlin com toda sua sabedoria e paralelamente nutrido de um lado cômico além de Lancelot, em outras histórias e até filmes como Lancelot: O Primeiro Cavaleiro (1995), é mostrado como um dos grandes aliados de Arthur, no entanto, na estória criada pelo autor da série, Bernard Cornwell, não é bem assim.




EXCALIBUR

Terceiro e último fascículo das Crônicas de Arthur,  por sinal, consegue fechar com chave de ouro toda saga relatada por Derfel Cadarn em suas memórias para a rainha Igraine sobre Arthur e seus aliados num dos períodos mais complicados do Reino da Britânia em seu processo de consolidação.

A melhor passagem de todos os livros da série se encontra neste, a batalha de Mynydd Baddon, entre a resistência bretã mais uma vez liderados por Arthur contra os conquistadores saxões que culminará com o êxito de um e a queda definitiva do outro estando em jogo o futuro de uma nação.

Chega ser incrível a forma do encerramento deste livro e da série no geral, tudo é mais intenso, os personagens estão envelhecidos, os sentimentos explosivos e a tensão extrapola a cada página lida, as estratégias de combate mostram que será preciso fazer alguns sacrifícios para vencer os invasores e se de fato Arthur está preparado abdicar de certas escolhas.



Em resumo geral As Crônicas de Arthur é uma excelente coletânea sobre o personagem título assim como outro marco envolvendo o grandioso rei medieval, As Brumas de Avalon, que até hoje segue sendo um dos principais expoentes no universo arthuriano provido de algumas particularidades em comum a exemplo que no livro da escritora Marrion Zimmer Bradley também utiliza de um narrador em idade já avançada para dar sua versão dos fatos, nesse caso Morgana.

Aos adeptos mais conservadores sobre o mito em torno de Arthur podem estranhar ler que o rei nunca foi de fato rei e que figuras tão bem trabalhadas, gozando de imenso prestígio por outros contos, na visão de Bernard Cornwell, viram praticamente intrigantes na corte sem qualquer caráter buscando dentro do possível de suas forças atrapalhar as conquistas obtidas com inúmeras perdas.

Enfim, o desenvolvimento da série é muito bem construída apesar das tantas inovações que possam contradizer a ideia geral que se tem do personagem, mas tamanhas descaracterizações por assim dizer chega ser válido porque procura ao máximo fugir daquilo conhecido em outras obras e querendo ou não torna-se uma versão corajosa, pouco tradicional e de grande impacto literário valendo cada minuto de leitura. 

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