quarta-feira, 11 de junho de 2014

A noite é escura e cheia de terrores...

Ao termino do primeiro livro, A Guerra dos Tronos (crítica aqui), fica nítida impressão que é necessário partir logo para o próximo volume por ansiar em conseguir respostas deixadas no fascículo inicial e ver quais foram as consequências de certos atos cometido, mas, quando começamos folhear as primeiras páginas deste notamos na verdade ser uma extensão de questionamentos enquanto poucas daquelas interrogações serão de fato esclarecidas.

Como apresentado no livro anterior, o prólogo de A Fúria dos Reis revela a nova trama que será desmembrada nas mais de seiscentas páginas: a articulação daqueles que almejam despor o atual suserano real. Sob visão do meistre Cressen, temeroso pelos planos tramados dentro de Ponta Tempestade, sede da Casa Baratheon, por obra da sacerdotisa vermelha Melissandre; o resultado dessa passagem indica o tom sombrio prestes a dominar toda trajetória.

Após percursos na ascensão do rei Joffrey, Westeros segue sendo um verdadeiro caldeirão fervente já que outros nobres também reivindicam o Trono de Ferro, Stannis e Renly Baratheon, além das batalhas emancipacionistas do Norte e das Ilhas de Ferro, movimento encabeçado respectivamente pelas casas Stark e Greyjoy, originando assim a Guerra dos Cinco Reis. Paralelo à desordem Daenerys Targaryen continua peregrinar por Essos querendo formar um exército na tentativa de retomar a governança dos Sete Reinos enquanto isso Jon Snow, no norte da Muralha, parte à Floresta Assombrada com demais Patrulheiros da Noite no intuito de desvendar segredos envolvendo o povo selvagem e os Caminhantes Brancos.

Somos expostos a novos rostos, entre eles, Sor Davos Seaworth, onde também compartilharemos seu ponto de vista, Brienne de Tarth, Asha Greyjoy, Jojen Reed, Qhorin Meia-Mão, Jaqen H'ghar (talvez o mais enigmático). A inclusão desses personagens serve de contrapeso aos demais devidamente inseridos na trama; é através deles onde iremos notar a reação das figuras centrais, numa espécia de termômetro do capítulo descrito, a exemplo de Catelyn Tully, Theon Greyjoy ou Jon Snow e ver suas desenvolturas, preocupações e percepções das situações.

É notório habilidade de George R.R Martin em conseguir balancear princípios divergentes, todos os protagonistas (apesar de ser claro não existir protagonistas nessa série) tem suas vontades e objetivos diferentes que rumam a lados opostos, se po um lado Bran Stark tenta sobreviver a captura de um antigo aliado em sentido contrário vai Catelyn Tully buscando proteger seu filho, Robb, dos eventuais erros de um jovem comandante inexperiente. Isso prende atenção, faz desejar continuar lendo até ver qual desfecho será tomado e quase sempre concluído por um gancho de continuidade para próxima parte.

Sobre a estrutura literária não há mudanças significativas, tudo segue igual, a diferença fica por conta da ausências de alguns personagens e ter noção de outros pontos de vista, chegando ter até duas interpretações de um mesmo evento, exemplo, uma batalha marítima na qual iremos conhecer as observações de Davos, um contrabandista que tornou-se cavaleiro, e Tyrion Lannister, presente desde as primeiras tramas em Winterfell, sede da Casa Stark, mas notamos quanto sua influência aumenta reforçada com a nomeação para ocupar o cargo da Mão do Rei.

A maior diferença deste livro fica por conta do apelo político, comparado ao anterior, aqui terá mais diálogos entre elas possíveis alianças, incluindo, dos Starks e Baratheons na tentativa de deter o poderio dos Lannisters, quem de fato controla o Setes Reinos são a rainha regente, Cersei Lannister, e seu pai, Tywin Lannister, esse em guerra declarada contra Robb Stark, proclamado rei do Norte, que tenta de desvencilhar o território nortenho por se ver contra as cruéis atitudes tomadas pelo rei Joffrey, apesar da pouca idade, uma figura violenta, sedenta pelo poder e punições pagas com morte (preferencialmente decapitações e empalações).

Se o primeiro livro mostrava que ninguém estava salvo por maior grau o status da pessoa fosse na A Fúria dos Reis entendemos melhor como funciona a relação de interesses, fato ignorado por Eddard Stark, procurando tomar decisões ao seu modo, acreditando estar fazendo a atitude correta. Agora reparamos mais profundamente quão complicado é esse jogo, tudo beira cinismo, trapaças e vantagens; verdades são silenciadas e mentiras ganham forças chegando dar um nó na cabeça para compreender todas as alternâncias, transmitindo uma concepção abrangente da política geral. Não adianta ser um herói venerado pelas glórias conquistadas no passado se não sabe adaptar-se para lhe dar com outro tipo de conflitos, no campo diplomático, apontado como principal erro do Senhor de Winterfell.

O sentimento de traição permanece presente, não sendo prudente confiar em ninguém. Tramoias são orquestradas constantemente e companheiros trocam de lados sem arrependimentos movidos pelo desejo do poder (sempre o tal do poder!), mas há também relacionados as vinganças, não é incomum ter conhecimento de antigas rixas. Para alguns o ego fala mais alto e a inveja torna-se parte de si, querer e ter o prestígio do outro, a exemplo de Petyr Baelish, comerciante habilidoso e responsável por parte das intrigas da corte.

Outro aspecto melhor detalhado envolve feitiçarias. Anteriormente não existe menções relevantes sobre o fato até contendo citações afirmando serem praticas extintas, contudo, vemos não ser totalmente verídico tal alegação. Certos indivíduos possuem conhecimentos comprovados dessa arte entre elas a Senhora Vermelha, Melissandre. Mulher vinda das terras de Essos, conhecido também como Além do Mar Estreito, local de cultura mística na qual há forte presença do tema como referência temos a Casa dos Imortais onde em determinado momento Daenerys precisa explora-lá no intuito de recuperar algo valioso e lá passa ter visões obscuras; reforçando o lado sinistro presente neste romance.

Não pode ser esquecido do fator Stark (sim, a grande Casa do norte é um elemento relevante). Durante as primeiras páginas das Crônicas de Gelo e Fogo é ostentado uma ideologia batida da família perfeita, quem sabe uma crítica enrustida ao pensamento de felicidade, personificados por pais atenciosos e filhos saudáveis numa harmônia quase imaculada, entretanto, no decorrer essa caracterização vai definhando, o ápice ocorre justamente no desenrolar da Guerra dos Cinco Reis em que cada um dos integrantes seguem caminhos opostos, contudo, possuindo um só sentimento: fuga. Desviar dosas humilhações e maus tratos, manter-se vivo ou de uma responsabilidade grande demais para ser carregada.

Resumindo, A Fúria dos Reis é um gigantesco conto de transição para o próximo livro, nele somos transportados para uma prévia do que virá, os acontecimentos presentes aqui tateiam a imaginação sobre aquilo prestes acontecer com base no material apresentado supondo quais rumos serão tomados. De praxe alguns personagens são retirados, no entanto, novos vão surgindo, outros já mostrados em menor aparição ganham destaque dessa vez numa caracterização necessária para dinâmica, resultando num excelente nível literário mantendo qualidade por ser um conjunto diferente e reforçando a ideia que tempos negros estão por chegar.

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