domingo, 9 de fevereiro de 2014

Uma vida nada virtuosa

Quando foi anunciado que o mais novo projeto do contraditório Lars von Trier, responsável por filmes como Dogville e Manderlay, iria contar com cenas de sexo reais logo vieram opiniões divergentes, na maioria de reprovação das pessoas que fazem parte do meio cinematográfico por acreditar ser um recurso apelativo para alguém que nos últimos tempos apresentava trabalhos tão desnivelados sendo a síntese de Anticristo (2009), repudiado pelo o método da sua composição, e Melancolia (2011), premiado como melhor filme europeu e rendendo para Kristen Dunst o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.

Durante todo processo de pré-produção sucederam inúmeras baixas entre financiamento e elenco, perdendo a atriz Nicole Kidman que estaria sem disponibilidade, mas segundo o tabloide inglês The Sun, a desistência ocorreu devido as tais cenas verídicas de relações sexuais e isso teria constrangido a atriz que trabalhou com o cineasta dinamarquês em Dogville (2004). Após conclusão das filmagens surgiram outros imprevistos, desta vez por parte da distribuidora que cortou algumas horas por acreditar ser cansativo um filme conter quase 360 minutos de projeção e para solucionar, além da retirada de algumas cenas, foi decidido dividir a obra em duas partes.

Rebuliços à parte, o drama erótico estrelado por Charlotte Gainsbourg (A Árvore) e Stellan Skarsgard (Thor: O Mundo Sombrio) estreou em janeiro deste ano em poucas salas, entretanto, virando sinônimo de sessão cheia e parte desta curiosidade em querer conferir deve-se por toda expectativa criada ao longo da divulgação com imagens, matérias e vídeos falando da construção envolvendo o projeto e também de polêmicas mundo à fora incluindo exibição do trailer antes de desenho infantil, proibição de passar em alguns países e eventuais cortes além dos já realizados.

Ao deparamos com o início da projeção percebemos se tratar de uma obra cujo objetivo é provocar no expectador alguma reação sensorial, primeiro devido os longos três minutos de tela negra auxiliado somente por ruídos e em seguida por diversos enquadramentos de um beco durante uma garoa alternada com imagens de Seligman, personagem de Stellan Skarsgard, arrumando-se para sair de casa, tudo em tom melancólico, até que o silêncio apaziguador é rompido pelo estrondoso som do metal industrial da banda alemã Rammstein através da música "Füher Mich" no primeiro momento em que é revelado a mão da protagonista Joe estirada no chão desacordada.

A partir do encontro entre os personagens é dado de fato detalhes sobre a trajetória de vida de Joe que se considera um ser humano ruim enquanto Seligman, acredita não ser verdade tal afirmação, para provar a mulher agora acolhida na casa do homem que a retirou da rua revela seu passado desde a descoberta de suas partes íntimas, ainda criança, até adolescência e início da vida adulta, mas cada nova descoberta o homem aponta o lado positivo e não demonstra ficar chocado até mesmo nas situações mais radicais entre elas, uma ocorrida num trem, outra em um hospital e uma com a participação de Uma Thruman (a eterna noiva vingativa de Kill Bill) numa sequência simultaneamente forte e cômica.

O humor sarcástico é frequentemente utilizado desde a química criada entre narradora e o ouvinte, ambos defendendo suas visões, curiosidades apontadas em algumas afirmações, exemplo, envolvendo sequências Fibonacci, partituras musicais, figuras geométricas, citações literárias, sendo contrapeso para situações de difícil assimilação que requer maior cuidado para serem entendidas, justamente as ligadas pelo sexo, muitas vezes de grande tensão e algumas com envolvimento do pai da protagonista, aqui interpretado por Christian Slater, num personagem diferente dos seus últimos trabalhos, mostrando ainda ter feeling para atuações sóbrias como nos distantes O Nome da Rosa (1986) e Assassinato em Primeiro Grau (1995).

Em resumo, Ninfomaníaca é um conjunto incompleto, a segunda metade será lançada agora em março, o final desta primeira parte foi demasiadamente abrupto, dificultando entendimento detalhado sobre a obra, mas pelo o que foi apresentado demonstrou uma estória envolvente nutrida de rebeldia não contra alguém, contudo, ao sentimento do amor, desacreditado por Joe em suas aventuras. Só nos resta agora aguardar pela conclusão de um trabalho conceitual e mesmo que não tão inovador, mostrou peculiaridades que valem ser analisada caso a caso.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Um razoável conto do além

A primeira ideia pré-concebida sobre um filme abordando em sua temática um retrato sobrenatural e contando no elenco com a presença da cantora Sandy, que construiu ao longo da vida imagem de boa moça, pura e recatada de forma tão exaustiva pela mídia que, a contragosto, virou alvo de piadas e tal circunstância, por motivos óbvios, poderia não despertar em grande parte do público expectativa em assistir sendo erroneamente chamado de péssimo antes mesmo de conhecer melhor o enredo da estória apresentada.

No Recife, região que conta com nove grandes estabelecimentos além das salas alternativas, a estreia se deu em apenas em um deles, o Cinema da Fundação, sendo exibido numa sessão dupla que comparado a outras estreias do local teve desempenho fraco, pouco público para prestigiar a primeira direção solo em longas do diretor e também roteirista paulista Marco Dutra, elogiado por seu Trabalhar Cansa (2011), lançado no tradicional Festival de Cannes em parceria com a diretora Juliana Rojas.

Contendo parte do mesmo traço estético do antecessor, o filme que conta com o galã global de outrora Antônio Fagundes e do pouco conhecido para boa parte do público Marat Descartes, esse na função de protagonista, revela uma visão particular das mudanças ocorridas por uma pessoa sob influência de determinada entidade espiritual, representado no caso pela mãe já falecida do personagem central, alterando a personalidade durante novas redescobertas do período da juventude através de objetos transformados em quinquilharias e de uma antiga fita vhs que revela passagens referente algum tipo de culto religioso.

A transformação não se dá apenas no protagonista, mas nos demais personagens e também no apertamento onde grande parte do filme é rodado, de início possuindo uma iluminação limpa, clara e de visualização objetiva, entretanto, com o passar do tempo torna-se um lugar mórbido, sombrio, frio e claustrofóbico, dando entender ser um local carregado de más energias, sendo um excelente trunfo realizado pelo diretor de fotografia, Ivo Lopes Araújo, que soube como fazer essa transição de maneira gradual sem causar repentino desconforto visual.

Vemos também a construção de figuras secundárias interessastes, representado pela manicure com dons mediúnicos Miranda (Gilda Nomance), presente apenas em duas sequências, contudo, pertencendo a ela a cena mais enigmática de todo filme onde depara-se com tal entidade presente no subconsciente do homem atormentado pela forte presença da mãe falecida, abrindo assim o início do terceiro ato da trama, sendo esta a parte mais difícil encontrada pelo diretor para concluir sua obra já que a partir desde ponto não há grande evolução, dando pistas como será o final, que ocorre sem apresentar um grande clímax.

Apesar do encerramento pouco relevante, Quando Eu Era Vivo é uma produção de feições minimalistas que tenta não ficar preso ao conceito do lugar comum e nisso possui seu valor mostrando que existe sim espaço para novos segmentos do cinema nacional saturado há décadas pelo drama onde todo mundo chora, onde todo mundo é infeliz e das comédias sem qualquer relevância que bombardeia as salas comerciais, nessa produção independente de orçamento razoável para os moldes brasileiros existe um fio de esperança para novos projetos.