sexta-feira, 26 de julho de 2013

O Incrível Mundo de Gumball: Uma comédia neurótica, descontraída e de fácil entendimento

Após duas longas temporadas e diversos prêmios importantes ganhos no quesito animação voltado para televisão O Incrível Mundo de Gumball (The Amazing World Gumball), produção britânica em parceria com os estúdios americanos da Cartoon Network, terminou adquirindo perante a crítica junto ao público boa receptividade proporcionado não somente pela temática espalhafatosa e nonsense, mas devido as técnicas de construção da série, reforçando o momento de renovação do canal pertencente ao grupo AOL Time Warner.

Atualmente em exibição no bloco HAHAHA, do qual fazem parte Apenas um Show (clique aqui), Hora de Aventura (clique aqui) e MAD, as engraçadas estórias vividas por Gumball Watterson, um gato azul, e Darwin, um peixe laranja, apresentam muitas vezes cenários relacionados a questões da transição da infância para início da puberdade, exemplo, problemas de relacionamento escolar, interesses amorosos, amizades e questões familiares encabeçada pelos pais, Ricardo e Nicole, e pela irmã caçula, Anais.

O enredo procura sempre explorar as dificuldades de Gumball, um personagem rodeado por medo, defeito e insegurança que tem na figura do irmão adotivo, Darwin, seu melhor amigo e com isso passa vivenciar situações constrangedoras, normalmente sempre de grande perigo, fazendo por diversas vezes quase chegue ser morto além do confuso relacionamento familiar no qual tem um pai desleixado e uma mãe altamente controladora e preocupada, contribuindo assim também para encenações embaraçosas enquanto reunidos.

O humor leve apresentado na trama, sem grandes novidades nesse quesito, proporcionado simplesmente pelas desventuras ocasionais de Gumball consegue distrair a cada episódio, em seus onze minutos de duração, devido certo modo pela inocência do protagonista que durante novas tentativa de superar as dificuldades corriqueiras do dia-a-dia termina encarando somente mais confusões, entretanto, sempre nutrindo a esperança de não ser tão desafortunado e isso termina proporcionando para gerar somente mais confusão.

Agregando ainda figuras secundárias interessantes como o Sr. Robinson (uma marionete), Tina (uma t-rex), Penny (uma amendoim) entre outros revela a diversidade do mundo criado para o programa que mescla os mais diferentes elementos relacionado ao desenvolvimento de animações indo desde o tradicional 2D, stop-motion, 3D, incluindo live-action, numa ambientação rica em textura tornando a criatividade presente um dos principais destaques da série animada criada pelo animador francês Ben Bocquelet.

Indo agora para a confirmação da terceira temporada, ainda em fase de elaboração, que contará com 40 episódios, o projeto já ganhou esse ano o prêmio Emmy Kids Awards em sua primeira edição, premiação voltada para produções infantis não americanas, em 2011 faturou o BAFTA (Acadêmia Britânica de Artes do Cinema e Televisão), o mais influente festival cinematográfico do Reino Unido, repetindo a façanha em 2012, e também vencendo o tradicional Annie Awards como melhor equipe de produção infantil.

A fórmula de fácil compreensão auxiliada pela diversidade dos elementos técnicos fez do seriado
uma grata surpresa, principalmente pelo experimentalismo presente, tudo gira em torno de Gumball e nada parece estranho apesar do qual mais exótico seja, banana hiperativa, impressão digital ladrão, vírus de computador vindo de outra dimensão, garoto robô, fantasminha emo, nenhuma coisa chega ser incomum no mundo onde vive o atrapalhado gato azul pré-adolescente, sua família e amigos de escola.

Nutrindo um humor mais ameno do que mostrado em Apenas um Show e MAD, as histórias tem características singulares, nada muito aprofundado ou que necessite prestar tanta atenção, em certos momentos fazem uma ou outra referência a bandas famosas como AC/DC ou Kiss satirizadas nas camisetas de Rocky Robinson a exemplo de AB/CD e Bisou (beijo em francês), além de algumas citações envolvendo antigos jogos de videogames e filmes, tendo Atari e Senhor dos Anéis novos exemplos.

Possa ser que em determinados momentos a produção peque por falta de novidades enquanto enredo, alguns episódios se parecem muito, entretanto, o estilo proposto ao programa sobressai a esses pequenos escorregões e as continuas sequências pastelões protagonizadas por Gumball e Darwin conseguem superá-las, o importante é ver a jovem dupla em circunstâncias cada vez mais desastrosas e perigosas, até porque a graça da série vêm justamente das trapalhadas criadas por eles lançando em inúmeras enrascadas.

É notório o descomprometimento da série, sem grandes pretensões terminou atingindo uma boa quantidade de fãs, mesmo que em menor número comparado as principais produções originais do canal infantil, no entanto, vale reforçar se tratar de um projeto não inteiramente estadunidense e isso termina agregando alguns valores como as diferentes maneiras de se fazer animações e não somente ficando preso as mesmas fórmulas, nesse ponto O Incrível Mundo de Gumball tem um grande deferencial comparado aos demais programas: inovação técnica.

O desenvolvimento das aventuras de Gumball e Darwin se deu com a utilização de personagens criados por Ben Bocquelet para comerciais que terminaram não sendo utilizados, então incentivado pelo projeto de novas ideias do Cartoon Network Development Studio Europe, sediado em Londres, resolveu reuni-los num ambiente escolar resultando no piloto (vídeo abaixo), apresentando muitos das figuras que iriam fazer parte do programa, mesmo alguns tendo formas diferentes como a própria dupla protagonista.

Em seguida o aval dos diretores responsáveis pelo lançamento das novas séries começou então o processo de criação, levando quase dois anos para concluir a primeira temporada, contendo 36 episódios, estreando na integra, inicialmente nos Estados Unidos, em 9 de maio de 2011, anteriormente, 3 de maio, foi ao ar a prévia como é que seria o universo vivido por Gumball e seus amigos entrando minutos antes do capítulo inaugural de O Show dos Looney Tunes, reforçando as constantes tentativas do estúdio americano em reformular sua grade de programação.

As primeiras críticas relacionadas a produção revelaram-se positivas sempre exaltando o visual, as músicas e o humor incluindo boas menções em importantes meios de comunicação a exemplo da secular revista Variety, que por sinal esse ano cancelou suas publicações impressas diárias após 80 anos de circulação, e da Entretainment Weekly, ou abreviado para EW, pertencente a subsidiaria Time Inc., editora de revistas, incluindo a conceituada Time, por sua vez vinculada ao grupo Time Warner, mesmo proprietário da Cartoon Network.

Como primeiro projeto elaborado pela divisão europeia da CN, o segundo foi um curta-metragem solo intitulado The Furry Pals (link para o vídeo), mostrado em 2011, mas sem saber se poderá vir ter sequências, lembrando que o processo para liberação de construção de novos desenhos é demorado, o peso de maior responsabilidade fica a cargo de O Incrível Mundo de Gumball, entre a primeira e segunda temporada, sofreu algumas alterações técnicas para manter o nível gráfico sempre atualizando as necessidades da série.

Tantos fatores fazem da sitcom animada uma grande aglomeração de ideias, até momento bem sucedidas, que auxiliam na tentativa de retomada da Cartoon Network pelo posto de ser o principal canal infantil da tv a cabo, devido fato nos últimos anos ter perdido espaço para Nicklodeon e os da Disney, além de superar a forte crise que abateu o estúdio durante o final da última década e início desta, tal processo indica da importância em estar sempre em constante mudanças e talvez consiga novamente voltar aos bons tempos.



BEN BOCQUELET, A CABEÇA

Benjamin Bocquelet, ou Ben, é de nacionalidade francesa nascido na Inglaterra e faz parte do atual casting de novos realizadores da Cartoon Network que nos últimos anos tem investindo em jovens profissionais como J.G. Quintel (Apenas um Show) e Pen Ward (Hora de Aventura) na busca de a cada temporada apresentar novos formatos.

Foi contratado em 2007 juntamente com a criação da divisão europeia da CN após ter ajudado a desenvolver dois pequenos curtas de animação, sendo o primeiro deles o catastrófico e divertido The Hell's Kitchen (2003, vídeo), e o segundo, The Little Short-Sighted Snake (link para o vídeo), lançado na rede de televisão pública da Estônia, em 2006, exercendo a função de ilustrador.

Atualmente divide o tempo profissional entre a criação de novos episódios de O Incrível Mundo de Gumball, trabalhos internos da Cartoon Network (divisão europeia) e na colaboração pequenas produções de animações independentes.


terça-feira, 2 de julho de 2013

A nova onda zumbi

Quando anunciado que o best-seller Guerra Mundial Z - Uma História Oral da Guerra dos Zumbis, de autoria de Max Brooks (filho do renomado cineasta Mel Brooks) ganharia as grandes telas gerou dentre os fãs do gênero uma grande expectativa reforçada ainda mais com a participação do astro Brad Pitt integrado ao elenco e produção, contudo, durante o desenvolvimento sucederam inúmeros contratempos dificultando a execução do projeto dando entender um possível desgaste no resultado final.

Nos bastidores foi dito haver constantes desentendimentos entre o diretor, Marc Foster, e o produtor, Brad Pitt, culminando quase com o desligamento do cineasta suíço responsável por filmes como Quantum of Solace (2008), O Caçador de Pipas (2007) e A Última Ceia (2001) das filmagens motivado principalmente por "divergências criativas" além dos frequentes atrasos para conclusão, estouro do orçamento (chegando a girar em torno dos US$ 200 milhões) e da polêmica em mudar praticamente todo o desfecho final da obra.

Quando as dúvidas sobre a qualidade começavam a pairar em volta de Guerra Mundial Z até por que pouco do conteúdo do desenvolvimento era repassado e a maioria das notícias envolvia problemas internos chegou a cogitar um possível insucesso, mas, desde a última sexta feira, quando finalmente entrou em cartaz, após adiamento em seis meses, o resultado apresentado na projeção demonstra que apesar do mau rumo tomado durante o processo de criação não parece ter pesado tanto assim na montagem do filme.

Nos primeiros segundos de exibição, durante a formação dos títulos, dá para perceber que a proposta nesta produção não será como de costume revelada em filmes de mesma temática, encabeçada pela proliferação dos mortos-vivos sedentos por sangue e viscéreas humanas num grotesco show de horror. Durante a abertura, ao som da banda britânica Muse, é apresentado uma série de acontecimentos simultâneos na Terra, indo de manifestações populares violentas desde à luta pela sobrevivência de animais confrontando-se, caçando e matando os oponentes.

Fica claro que em Guerra Mundial Z não há espaço para cenas chocantes, humor negro ou qualquer elemento significativo comuns no segmento popularizado com George A. Romero em seus filmes B. Aqui tudo é sóbrio, sério e dramático não deixando brechas soltas para eventuais referências de trabalhos anteriores envolvendo zumbis e isso distância muito do gênero terror aproximando mais dos filmes de ação tipicamente hollywoodiano com sequências frenéticas e belos efeitos especiais.

Um filme rotulado como eminente desastre devido sua complicada concepção reforça a ideia que nunca se deve julgar sem ao menos dar oportunidade em assistir; é notável que algumas cenas ficaram necessitando de um melhor acabamento no quesito roteiro, entretanto, a competente direção consegue sobressair nesses aspectos negativos por dar ao espectador um clima claustrofóbico, apreensivo e de poucas saídas para o personagem central da trama que no já manjado estilo Jack Bauer de ser é a única esperança de salvação de todo mundo.

O enredo aqui é como de costume nas estórias catástrofes e epidêmicas, nada se sabe da origem apenas que em pouco tempo o pandemônio toma conta das pessoas e praticamente do nada a sociedade entra em colapso deixando a sensação da aproximação do fim dos tempos, mas nesse caso tomado pela proliferação dos famigerados zumbis onde em boa parte da projeção são pessoas com olhos esbranquiçados diferente do que foi popularizado ao longo dos anos nos filmes de terror, principalmente os de baixo orçamento.

A trama começa no subúrbio da Filadélfia, no cotidiano de uma família que em poucos momentos ao sair de casa se vê perdida junto as eventuais cenas de pânico no centro da cidade motivado por pessoas ensandecidas que atacam outras sem qualquer razão e nesse momento a única alternativa é manter-se longe desses indivíduos buscando encontrar um local seguro. Após alguns acontecimentos o pai da família (Brad Pitt), um ex-investigador da ONU, parte numa missão militar para poder descobrir as razões desse mal originando assim todo o desenrolar.

Seguindo a mesma linha de raciocínio presente na produção Contágio (2011), buscando localizar o paciente 0 e consequentemente elaborar uma vacina contra a doença, a estória ao longo do tempo passa ganhar novos contornos entre elas um ar dramático proporcionado pela rapidez da destruição dos locais visitados ocasionado pela ferocidade dos mortos-vivos, conceito muito parecido em Extermínio (2002), criaturas ágeis, força maior do que imaginado e possuindo certa inteligência, diferente nos filmes tradicionais do gênero.

Não dá para reclamar no quesito aventura já que durante praticamente desde os primeiros minutos Guerra Mundial Z trás correria, tiros, explosões, aviões sendo derrubados e cidades tomadas de uma forma como nunca vista no segmento apocalipse zumbi. A ausência de mordias, sangue e tripas saltando para fora da tela é compensada pelo clima da eminente destruição da raça humana criado a partir do ritmo frenético dos acontecimentos e pela tensão gerada a cada local visitado, talvez tendo seu ápice na parte envolvendo Israel.

Os pontos negativos ficam por conta de ser uma produção de um único personagem, no caso vivido por Brad Pitt, as outras presenças pouco contribuem para o desfecho da obra e tudo recai nos ombros do galã cinquentão. Outro aspecto que deve ser relevado é a facilidade de locomoção de um continente para o outro onde em poucas horas transcorridas passa pela América do Norte, Ásia e Europa além da solução de saída fácil encontrada para conclusão do filme, contudo, não pode ser negado que para algo rotulado de desastroso antes de ser lançado consegue agradar e surpreender positivamente.

Em resumo, a proposta levada as telas na nova aposta de Brad Pitt pretende fazer desse o primeiro filme de uma franquia. Pode não ser aquilo esperado por alguns devido o fato da produção ser totalmente diferente do livro, uma espécie de coletânea de depoimentos dos sobreviventes aos ataques dos errantes, entretanto, acerta em cheio quanto ação/aventura e dessa forma agradando aos que querem ver um competente blockbuster sem muitas preocupações com referência ou manter um legado construído ao longos anos.